Gabriela, nascida no mesmo dia que o John Frusciante - porém dezenove anos depois -, é uma bicha louca. É fluente em baleiês e na língua do pê. É chefe da sua própria máfia, dona do seu tanque e rainha do seu palanque. Odeia gramática, franceses e emos. Adora fofocas, gírias estranhas e, acima de tudo, leite condensado. mais »

Desde 12/12/2006 no ar, o Nuvem Pimenta é um blog sem nenhum compromisso com a verdade e/ou sanidade. O nome não é nada além de uma idéia muito louca que surgiu na minha cabeça um dia qualquer de verão. Uma nuvem cor de pimenta, uma nuvem de pimenta, uma nuvem apimentada - o que você preferir. É a minha nuvem pimenta. mais »

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    Os leitores mais antigos do blog provavelmente lembram como o meu primeiro contato com o maravilhoso mundo do Detran foi traumático. O que eu nunca contei foi como eu, pessoa desequilibrada que apresenta sérios distúrbios psiquiátricos, enganei o psicotécnico.

    Como já citei acima, eu não sou lá muito normal. Além disso, meus amigos me contavam histórias de que tiveram que desenhar não-sei-quantas linhas retas, quadrados, pontinhos, etc. Eu não consigo desenhar uma linha reta de jeito nenhum, tenho sérios problemas com simetria e minhas mãos não são lá muito firmes - tanto que esses mesmos amigos já avisaram que se eu for cirurgiã plástica, ninguém ousará ser meu paciente. Estava com medo. Se o psicotécnico fosse, de fato, eficiente, eu estava ferrada.

    Cheguei lá, intermináveis exercícios de lógica, e as malditas linhas. Acabei por me sair bem, se comparada ao motoboy que mais parecia um portador de Parkinson sentado ao meu lado. Tive que desenhar uma casinha - lembrei-me do meu professor de Biologia, “DESENHA O CHÃO! DESENHA O CHÃO!” - e uma árvore.

    Estava comemorando mentalmente a minha aprovação. Pra cada desenho, eram feitas algumas perguntas. Eram tão óbvias que só pegariam o mais otário dos psicopatas/esquizofrênicos. Coisas do tipo “a árvore que você desenhou está morta?”. Sério, que tipo de mente perturbada desenha uma árvore morta? Ou pior, desenha e responde “não, ela tá só dormindo”? Enfim, louca refinada que sou, não cai nesses truques bobocas.

    Finalmente cheguei na última parte do teste: desenhe uma pessoa. Como eu sou incrivelmente talentosa, meu desenho ficou mais ou menos assim:

    psicotecnico

    Um primor, não é mesmo? Esqueci de desenhar o chão nesse desenho, mas não esqueci no do Detran. Maravilhada pelo meu talento, prossegui para as perguntas.

    Você desenhou um homem ou uma mulher
    Fácil, um homem.

    Quantos anos ele(a) tem?
    Putz… ahn… sei lá, 11 anos, vai.

    Ele(a) é triste ou feliz?
    Feliz né. Olha esse sorrisinho simpático.

    Você conhece essa pessoa?
    Hum… sinto cheiro de armadilha. Próxima pergunta!

    Quem é esta pessoa?
    Ih, fodeu. Não conheço nenhum menino de 11 anos. Mas acho que se eu colocar que não o conheço, vai parecer que tenhos delírios, visões e coisas do gênero. No entanto, se eu inventar alguém, estarei, de fato, tendo um delírio. E pior, estarei mentindo para o Detran. Tentador. Ok então. Vou mentir. O nome dele é Pedrinho e ele é meu primo. Um primo chamado Pedrinho. Clichê. Chama-lo-ei Rafael. Meu primo Rafael. Voltemos a pergunta anterior.

    Você conhece essa pessoa?
    Sim.

    Quem é esta pessoa?
    Meu primo Rafael.

    Escrevi tudo a caneta, ou seja, não haveria como me arrepender. Vitoriosa, entreguei a prova, o caderninho e fui esperar o resultado. Na sala de espera, ficava observando aqueles que eram chamados para falar com a psicóloga e pegar o resultado. Como eles demoravam alguns minutos para voltar, entrei em pânico. E se ela estivesse fazendo perguntas sobre o desenho? E se ela estivesse fazendo perguntas sobre o desenho do menino? Eu seria descoberta, humilhada e rodaria no psicotécnico. Já conseguia sentir os olhares de medo e desaprovação de meus amigos e familiares. Precisava bolar uma história sobre meu priminho imaginário.

    Ok. O meu primo Rafael tem 11 anos.. então ele nasceu em 1996 (fiz o teste em 2007, hoje o Rafa já teria quase 13 anos). Vou dizer que ele nasceu no mesmo dia que a minha irmã pra não me confundir. Ele gosta de jogar The Sims e andar de skate, mora na Agronômica, atrás do McDonald’s. Aliás, mesmo morando ali, ele não gosta muito de fastfood e quase nunca vai no McDonald’s. Ele é bem magrinho. Ah, ele é filho do meu tio - irmão da minha mãe - com a minha tia… Joana. Tia Joana. A tia Jô é super rígida, mas não adianta nada porque o Rafa é uma peste. Ele é o neto mais novo dos meus avós, portanto, o mais mimado…

    “GABRIELA NUNES!”

    Fodeu. Entrei, revisando mentalmente a minha história. Deveria contá-la sem muita afobação e sem muitos detalhes, pois isso tornaria óbvia minha mentira. Ao ser perguntada alguma informação mais específica, olharia pra cima, apertaria os olhos, e me lembraria, com um olhar de afeto, sobre o meu querido priminho Rafa.

    Entrei e sentei frente a frente com a psicóloga, pronta para passar a perna no sistema. Ela folheou o meu caderno de respostas. Gelei. Fez pequenos comentários sobre as respostas e os desenhos, do tipo “ah, muito bom”, “que capricho”, “normal”. Então ela chegou no último desenho e o encarou. Meu coração parou. “Muito bom o seu boneco de palitinho, hihihi”. Fechou o caderno e o repousou sobre a mesa. Olhou-me nos olhos. Eu tinha “mitomaníaca” escrito na testa. A psicóloga sorriu e afirmou que eu tinha passado e ela teria certeza que eu seria uma excelente motorista.

    Ao sair da sala, vitoriosa e confiante, ouvi uma música de suspense, gargalhadas maléficas ao fundo e fumaça vermelha sob meus pés. Eu havia triunfado.

    Provei o que muitos já tinham afirmado: o psicotécnico é ineficiente e ingênuo. Apenas os malucos otários caem naquelas pegadzinhas. Portanto, se você é, como eu, um desequilibrado de classe, dê uma lida no capítulo “Como não ser pego” do “Manual do Psicopata Aparentemente Normal” e você estará fora de perigo.

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